Abelardo & Heloísa 💖

Bonjour mês amis, ça va bien ?

Hoje vou levar vocês para conhecer essa história que tinha tudo para ser linda, mas foi coberta de dificuldades, tragedias é muito sofrimento, é uma história que resiste ao tempo , está marcada na história de Paris, vem comigo!

A ESTAÇÃO DO AMOR

 “Puseste meu nome na boca de todos os homens”, escrevia Heloísa a Abelardo, recordando-lhe as canções de amor que havia escrito para ela e que toda a França havia cantado. 
Sem dúvida alguma, Heloísa é a mulher mais famosa de seu tempo e, no entanto, sua biografia apresenta somente dados falhos em sua maior parte. 
O lugar de seu nascimento, por exemplo, a data e o nome de seus pais são incertos. 
Acredita-se que haja nascido em Paris (escritores muito fantasistas chegam a indicar exatamente o lugar), provavelmente entre 1100 e 1101. A mãe talvez se chamasse Hersindis ou Hersende. 
Do pai, nenhuma notícia, não se querendo aceitar a “voz” que dizia ser Heloísa filha secreta de Fulberto, apresentado como Tio. 
A hipótese busca justificação no profundo afeto (muito grande para um tio) que Fulberto demonstra por Heloísa, tendo seu ciúme alimentado também outras “vozes”, bastante maldosas. 
De todo modo, foi o Tio que cuidou da educação de Heloísa, fazendo-a entrar para o mosteiro de Santa Maria de Argenteuil, e depois levando-a para sua casa em Paris, quando ela tinha 13 ou 14 anos. 
Heloísa havia aproveitado muito os anos de estudo no convento, aprendendo entre outras coisas três línguas: latim, grego e hebraico, tornando-se a única mulher de seu século a falar estes três idiomas. 
A fama da donzela “excepcionalmente erudita”, como se exprime o monge cronista Guillaume Godel, alcança o filósofo mais famoso da França naquela época, Abelardo, que ocupava uma cátedra em Paris. 
Pedro Abelardo havia nascido em 1079, em Pallet, cidadezinha próxima a Nantes. 
A princípio discípulo e depois adversário de Guilherme de Champeaux, havia alcançado uma rápida notoriedade (e despertado muita inveja) pela håbil potência de sua dialética e pela novidade de suas idéias.
Paris era então uma pequena cidade, o Palácio Real, a Catedral (a de Notre-Dame, que hoje conhecemos, era apenas um ambicioso projeto), as casas, tudo se concentrava na Île de la Cité, a maior das duas ilhas do Sena. (Como eu queria uma máquina do tempo para andar por Paris desde o início e ver como tudo começou, atravessar séculos em poucos meses, que sonho!) 

Essa imagem mostra a construção da Notre Dame
em 1165, a história se passa um pouco antes.

A universidade não havia sido fundada, mas as muitas escolas, dentro e fora das muralhas, haviam chamado de toda a França, da Inglaterra, das Flandres, da Alemanha, das frias províncias escandinavas, da Italia, uma variada e falante coleção de estudantes. 

A Heloísa, embora dotada de saber extraordinário, os pré conceitos da época proibiam mesclar-se com aquela multidão: na amada exploração das letras, da filosofia, da teologia, devia caminhar só, no silêncio de seu quarto. 
Seu tio Fulberto era cônego da catedral, sendo sua casa separada das outras por um jardinzinho, como todas as que estavam situadas dentro da cidadela religiosa. Segundo a tradição, o jardinzinho do cônego descia até o rio e das estreitas janelas da casa podiam-se ver as barcas que chegavam e saíam do Porto de Saint- Landry.
Heloisa passeava sempre pelas estreitas ruelas de Paris, atenta as vozes, curiosa pelo movimento que ignorara durante os anos em Argenteuil. Não estaremos exagerando se pensarmos que deve ter encontrado muitas vezes Abelardo e certamente deve tê-lo reconhecido: era o filósofo mais famoso, mais odiado e mais amado do momento, seu nome estava em todas as bocas, suas disputas despertavam entusiasmo ou confirmavam rancores, os estudantes não o procuravam somente quando dava aulas, mas o seguiam pelas ruas, procurando levá-lo àqueles brilhantes jogos de pensamento, que o haviam tornado mundialmente famoso. Certamente Heloísa conhecia Abelardo, e este, também, devia saber o seu nome, e mesmo conhecer Heloisa. 
Pedro, o Venerável, o bom abade de Cluny, escreveu numa carta muitos anos depois: 
“Naquele tempo ouvia-se falar bastante de uma mulher que, mesmo estando presa pelos laços mundanos, dedicava toda a sua atenção ao estudo das letras, coisa bastante rara, e à procura do saber… Tu, com teu nobre zelo, não somente ultrapassaste todas as mulheres, mas superaste quase toda raça dos homens”. 
É portanto natural que Abelardo também ouvisse falar dessa donzela prodígio, que há alguns anos vivia perto dele, já que em Paris, naquela época, já se notava a propensão para os mexericos, as línguas dos estudantes não se moviam apenas para discutir os clássicos; imaginem-se os comentários sobre aquele mestre que dedicava sua inteligência, de um fascínio excepcional, somente à conquista de cátedras. 
A ambição havia sido, por muito tempo, o único elemento motor de Abelardo, mas agora, satisfeita, havia-se acalmado, e o nome de Heloísa teve a sorte de soar aos ouvidos do mestre, no momento em que ele estava disponível para entusiasmos novos e de outro gênero. 
Os estudiosos têm procurado na poeira dos séculos, descobrir palavras com as quais reconstruir o retrato de Heloísa, se Abelardo for realmente o autor do Roman de la Rose (uma autoria muito contestada), Heloísa deve ter sido “nem escura, nem morena, mas clara como uma lua” e, comparada com ela, até as estrelas desciam ao nível mais modesto de candeias. Pessoas bem mais imparciais, que procederam ao reconhecimento do túmulo de Heloísa, chegaram à conclusão de que ela devia ter sido uma mulher “alta e bem feita”. 
O coração de Abelardo, entretanto, há muito acostumado a entusiasmar-se apenas pelas descobertas intelectuais, não se deve ter encantado tanto pela coloração da pele ou pelo formato do nariz da donzela, quanto pelo fato “de ser insuperável pela quantidade de saber”. 
Abelardo buscou então Informações sobre as fraquezas de Fulberto, as maiores resultaram ser a avareza e um apaixonado orgulho pelos prodígios intelectuais da sobrinha. 
Abelardo enamorado não podia desejar coisa melhor, inventou a desculpa de estar à procura de alojamento e pediu a Fulberto que lhe alugasse um aposento, em troca do qual daria lições particulares a Heloísa e pagaria um bom aluguel.  O tio acreditou que se estivesse repetindo o milagre do maná: um mestre tão célebre e dispondo-se gratuitamente a ensinar à sobrinha. 
Duas considerações provavelmente o encorajaram a aceitar com entusiasmo o contrato: entre Abelardo e Heloísa havia 20 anos de diferença, e o mestre tinha a fama de ser indiferente a todo interesse sentimental: podia portanto acolhê-lo em sua casa sem temor. 
Abelardo, nos seus últimos anos escreveu que Heloísa, naquela situação, era como “um tenro cordeirinho oferecido a um lobo faminto”. 
Abelardo escreveu: 
Os livros ficavam abertos, mas nós falávamos mais de nosso amor que daquilo que líamos, e eu dava mais beijos que explicações. As mãos procuravam mais um ao outro que aos livros, e o amor se refletia em nossos olhos mais que a literatura os atraía para os textos.”
Fulberto julgava ter feito o papel do tutor severo, recomendando a Abelardo que castigasse Heloísa toda vez que esta se mostrasse desatenta: e sabemos que, quando naquele tempo distante se falava de castigo, não se pen- sava somente nas admoestações e palavras ásperas, portanto, o ruído de fingidos bofetões que alcançava os aposentos de Fulberto, garantia aos amantes a solidão. A paixão, que primeiro despertou fagulhas, logo se transformou num fogo abrasador.
Em nosso ardor não esquecemos nenhum aspecto do amor, e qualquer coisa que sugerisse adotávamos; quanto mais inexperientes éramos nestas alegrias, mais insistíamos: não conseguíamos nos saciar”. 
Mais tarde, escreve Abelardo a Heloísa:
“Nem sempre tu dividias o meu desejo e, tanto quanto podias, procuravas resistir-me e dissuadir-me, mas, como por natureza eras a mais fraca, eu muitas vezes te forçava com ameaças e açoites a consentir”. 
Os dias se passavam em completo êxtase: “qualquer coisa sugeria o amor”. 
E o amor, naturalmente, sugeriu também a imprudência. Por muitos anos o filósofo havia dado aos discípulos o espetáculo de seu entusiasmo pelos estudos: o súbito desinteresse provocou entre os estudantes uma preocupada interrogação, que encontrou resposta na constante pressa de Abelardo em voltar para a casa de Fulberto. 
Por toda Paris se espalhou a nova do amor de Abelardo e Heloísa, também Fulberto, embora em último lugar, ficou sabendo, não lhe sendo difícil depois confirmar a verdade. 
Os acontecimentos se precipitam agora em rápida seqüência para a tragédia.
Heloísa, separada à força do amante, descobre que está esperando um filho, e consegue enviar uma carta com a notícia a Abelardo, não com palavras confusas, não com temor pelo futuro, mas ainda, usando as palavras de seu amante: “com o maior contentamento”. 
A certeza de estar indissoluvelmente ligada pelo filho àquele amor, do qual sempre se orgulhará (mesmo quando Abelardo o substituir pelo arrependimento e a vergonha), está registrado na carta. 
A resposta de Abelardo não a desapontou, o Mestre de Filosofia, sedutor afortunado no amor, provou ser também hábil na aventura: organizou a fuga de Heloísa, vestindo-a de monja e levando-a para a Bretanha, onde a deixou aos cuidados de sua irmã Denise.
Ế dificil dizer se foram, como ele diz, a piedade pela angústia de Fulberto, ou as ameaças de represália, que o levaram a tentar um acordo com o traído tio. 
A falta de modéstia permitia-lhe caminhar sem tropeços nos seus raciocínios, pensou portanto, que propor casamento a Heloísa fosse um ato de reparação “superior a tudo que se pudesse esperar”. Todavia, as desventuras sofridas devem tê-lo feito considerar como paraíso perdido (mas que queria recuperar) a vida serena de professor de Filosofia. 
Acrescentou então uma cláusula: o casamento deveria permanecer secreto, “para que minha glória não sofra”. 
Discutiu-se muito sobre o fato de uma mulher, e logo uma mulher como Heloísa, aparecer como uma ofensa à glória do professor e marido. 
Abandonada a idéia do sacrilégio, devido ao fato de ser Abelardo chamado “clérigo”, palavra que tinha então um significado bem diferente do atual, preferiu-se atribuí-lo ao conceito que se fazia de um sábio, na Idade Média. Conceito defendido por Sêneca, entre os filósofos e por São Jerônimo, entre os teólogos: o sábio, segundo estes autores, não devia ceder à fraqueza do casamento, se não quisesse permanecer ligado a vínculos inúteis e degradantes. Ter Heloísa ao lado, com todas as bênçãos do matrimônio, teria comprometido Abelardo aos olhos dos estudantes.
Nessa história, a parte mais antipática foi reservada a Fulberto. Avarento; ciumento da sobrinha a ponto de fomentar as mais embaraçosas suspeitas; crédulo, aparece neste momento desleal como uma serpente, pronto a atacar com crueldade feroz. 
Ao projeto de Abelardo responde com uma ameaça: o que o impediria de depois de celebrado o matrimônio afastar os véus secretos e expor o filósofo aos sofrimentos da vergonha?
Heloísa, conhecendo melhor o tio, prevê que do matrimônio somente se poderão esperar desgraças, foi então que, contra a lógica das histórias felizes, pediu a Abelardo não que a desposasse, mas que permaneceriam amantes, e segundo o conceito explicado anteriormente,  quando Abelardo foi até a Bretanha para levá-la de volta a Paris, Heloísa expôs a todos os argumentos de Sêneca e de São Jerônimo contra o casamento. 
Há pouco nascida para o amor, Heloísa havia-se desenvolvido enormemente: sabia que o filósofo não poderia servir a dois senhores, a mulher e os livros, e a perspectiva de sacrificar-se, para não ser um empecilho à felicidade do amante, Ihe pareceu a única digna de ser encarada. 
Entretanto, acabou por ceder, como sempre, à votade de Abelardo, porque, escreve ele, “não suportava me desagradar”. 
Tem razão Lamartine quando, no livro dedicado Abelardo, e Heloísa, escreve que “aqui, como sempre, o coração da mulher foi viril, e o coração do homem mostrou-se feminino”. 
Depois de uma noite de vigilia, as núpcias foram celebradas em Paris, dentro do maior segredo. Falando sobre isso muitos anos depois, Abelardo usou a expressão “em certa igreja”, como se ainda estivesse obcecado pelo desejo de não espalhar a notícia, porém Fulberto fez o que fora previsto. 
Uma vez dito o sim, contou a todos que Abelardo havia-se casado com sua sobrinha; o fato de ela se encontrar agora no convento de Argenteuil, com as roupas negras de monja, era somente – afirmava um pobre estratagema do filósofo. 
Mas Heloísa, em sua infinita dedicação estava pronta para anular por todos os meios as manobras do tio: para salvar a honra de Abelardo, não hesitou em tornar-se perjura, chamando Deus como testemunha de que Ful- berto estava errado. 
Mas os juramentos de Heloísa tiveram o poder de um veneno para o coração de Fulberto: a ternura para com a sobrinha se evaporou, deixando lugar para o ódio contra quem a havia roubado, e para um desejo furioso de vingança.
Elaborou um plano atroz, pagou a um servo de Abelardo, para que esse o introduzisse, a ele Fulberto, e seus cúmplices, no quarto onde dormia o filósofo. Imobilizaram-no e lhe impuseram a mais vergonhosa das mutilações, a emasculação.
Quando, na manhã seguinte, a notícia se espalhou por Paris e uma multidão se reuniu defronte da casa de Abelardo, mal dizendo o gesto infame de Fulberto, o mestre percebeu naquela piedade generalizada uma segunda mutilação: era sua glória que se ia para sempre, levada pela onda de comiseração. 
Não achou outra solução para si, senão retirar-se para a abadia de Saint-Denys, ordenando à companheira de sua vida que tomasse o véu em Argenteuil. Do sofrimento de Heloísa não restou nada escrito, obedeceu imediatamente à ordem de Abelardo, entrando para o convento. 
Em poucos meses havia sido arrancada da inocência de seus estudos prodigiosos, conhecera a vertigem de um amor sem fronteiras, e caía agora na tragédia de uma vida de clausura, sufocante como um cárcere.
A TRAGÉDIA E A CLAUSURA 
Pedindo emprestada a Erasmo uma frase famosa, pode-mos dizer que Heloísa era “uma mulher para todas as estações”. 
A mocinha sábia que espantou toda a Europa culta de seu século; a enamorada que ensina palavras de fogo a gerações de amantes; a misteriosa estrangeira que faz nascer lendas de feitiçaria nas rudes bocas dos bretões; a heroína romântica pronta a estragar a própria vida em obediência ao esposo perdido; a monja que caminha rapidamente pelas pungentes veredas do ascetismo; a pecadora a penumbra de uma sacristia; a abadessa que com mão prudente administra preces e coletas, capelas e esmolas. 
 Em sua vida, cheia de contrastes, todos encontram uma página que agrade. Até as paixões malignas do Marquês de Sade encontram lugar nessa história: não faltou entre os estudiosos quem se divertiu contando quan- que transforma em alcova a penumbra de uma sacristia; a abadessa que com mão prudente administra preces e coletas, capelas e esmolas. Em sua vida, cheia de contrastes, todos encontram uma página que agrade. Até as paixões malignas do Marquês de Sade encontram lugar nessa história: não faltou entre os estudiosos quem se divertiu contando quantos bofetões e quantos açoites recebeu a pobre Heloísa nos breves dias de sua felicidade.

Uma contagem fantasiosa, obviamente, apesar de o pobre corpo de Heloísa ter realmente recebido castigos, embora suavizados por declarações de amor, ou suportados por causa dos cuidados do tio com a inocência da moça.

Enfim, depois de tantas lutas amorosas, a “paz do claustro” desce sobre ela. Uma paz só no nome, porque as peripécias e sofrimentos continuam atrás das grades. “Sob tua ordem”, escreve Heloísa a Abelardo, “mudei meu espírito e minhas vestes. Foi a tua vontade, não a devo-ção, que me fechou, tão jovem ainda, na austeridade da vida de um convento.” Todavia, obedeceu e acolheu com firmeza aquela vida que ela não escolhera. Foi em vão que muitos de seus amigos lhe pediram que não se condenasse a tal suplício.

Ela resolutamente se afastou deles, subiu ao altar, e, com voz baixa, mas firme, pronunciou os votos: queria desse modo expiar o mal causado a Abelardo. Uma dura pena para uma mulher atormentada por lembranças tão ardentes e oprimida por um presente tão doloroso. E, no entanto, Heloísa foi uma monja modelar. Quanto mais passavam os anos, mais o mundo religioso e intelectual da época admirava comovido o nobre comportamento, a doutrina, e a gentileza de espírito da infeliz esposa de Abelardo, que se havia tornado abadessa do mosteiro de Argenteuil. Mas, por volta de 1129, o Abade Siger de Saint-Denis, para estender o domínio de sua comunidade até Argenteuil, acusou as freiras de imoralidade; a acusação era falsa, mas o veredicto foi severo e as monjas foram expulsas do convento.

Enquanto o Abade Siger aumentava seus lucros, a condenação de Heloísa e suas irmãs tornou-se pública. Também a vida de Abelardo havia sido atormentada pelos ventos de muitas desventuras. Tendo saído de Saint-Denis por causa da insistência de seus discípulos, o filósofo retomou a batalha dialética com renovado ardor (a libertação dos laços carnais parecia haver conferido um novo calor a seu gênio), atraindo para si invejas e ódios ferozes: seus inimigos o haviam feito condenar pelo Concílio de Soissons, em 1121, por causa do tratado De Unitate et Trinitate Divina (sem poder pronunciar uma palavra de defesa, foi obrigado a jogar seu livro no fogo).

Mais tarde fugiu de Saint-Denis e construiu com as próprias mãos um oratório de taquaras e palha, dedicando-o à Santíssima Trindade (depois rebatizado “Paracleto”, ou seja, Consolador).

Ainda uma vez foi perseguido pelos inimigos, até que chegou a pensar em abandonar seu catolicismo, estando nesse estado de ânimo, foi-lhe oferecida a direção da abadia de Saint-Gildas, na costa bretã, o convento, entretanto, não era um oásis de tranqüilidade e seus monges eram brutais e corruptos.

Entre 1129 e 1130, Abelardo soube da desventura de Heloísa. Lembrou-se de seu “Paracleto” abandonado e escreveu à esposa (ainda que o fosse somente de nome e sob os véus monacais), propondo-lhe que para lá levasse suas freiras. Heloísa aceitou, e, por algum tempo, a vida no “Paracleto” somente reservou às monjas terríveis fadigas, fome e misérias. Mas espalhou-se a fama de sua humilde e heróica piedade, que conseguiu para o convento as primeiras doações (“para aliviar a penúria das pobres servas de Cristo que no Paracleto servem devotamente a Deus”, escreveu um doador em 1134, ao enviar como presente certos rendimentos). 

Muitas outras se seguiram, até que o “Paracleto” se transformou num florescente mosteiro. Heloísa mais uma vez havia despertado a admiração universal por sua incomparável e suave paciência, vida retirada e o mérito de sua conversação tão procurada quanto rara.
0 próprio São Bernardo, conselheiro de pontífices e de reis, veio até o Paracleto, atraído pela fama da abadessa. Também Abelardo de Saint-Gildas vinha sempre encontrar-se com Heloísa: encontros cerimoniosos e impessoais, para não dar margem a mexericos maldosos.
Mas logo mesmo essas visitas espaçadas cessaram, provavelmente por causa das calúnias e das eternas perseguições que se abatiam sobre o pensador demasiado liberal. Um longo silêncio se interpõe entre ambos, quebrado depois pela correspondência: aquelas cartas que ainda hoje são olhadas como um dos documentos mais apaixonados e dramáticos da literatura amorosa.
A sábia abadessa, a monja de enorme piedade, não se esquece do único amor de sua vida: “Não procurei nenhum outro fora tu e somente por ti aspirei“, escreve Heloísa. “Não teria hesitado, a um aceno teu, em seguir-te ou preceder-te no fogo infernal, por que minha alma não estava comigo mas contigo, e também agora, mais do que antes, se não está ainda contigo, não está em nenhum outro lugar.”
Inutilmente Abelardo lhe fazia notar que um outro amor deveria ligar agora suas almas. “À esposa de Cristo, o seu servo”, escrevia ele e Heloísa respondia: “A seu único depois de Cristo, a sua única em Cristo”. E ainda: “Ao seu senhor especial, a unicamente sua”. Depois dos anos nos quais se havia rebelado, intimamente, contra a vontade divina que a separara de Abelardo, havia aprendido a amar a Deus e o servia com todas as suas forças: mas ainda por amor a Abelardo, como um ato de amorosa obediência, o único que lhe era permitido para com o esposo perdido.

A perseguição havia conseguido, entretanto, acusar Abelardo de heresia. Renunciando a defender-se ante o papa e aceitando retirar as teses incriminadoras, o filósofo preferiu enclausurar-se em Cluny, no convento dirigido por Pedro, o Venerável.

Atormentado por dores atrozes, ali morreu em 1142. Foi o próprio Pedro que, numa carta cheia de ternura, anunciou a morte a Heloísa. A abadessa consegue que os despojos de Abe- lardo sejam conduzidos ao Paracleto, onde havia preparado um túmulo duplo.

Sua espera para reunir-se ao amado durou 20 anos. Ainda desta vez a biografia não tem os dados certos: sabe-se que a morte de Heloísa ocorreu no dia 16 de maio de 1163 ou de 1164.

O AMERICANO MARK TWAIN, visitando o Père Lachaise, em Paris, onde estão sepultados Abelardo e Heloísa, escreveu que “aquele túmulo é venerado mundialmente conhecido, e sobre ele se escreveu, cantou e chorou mais que sobre qualquer outro túmulo da cristandade, depois do do Salvador”.

Com efeito, Abelardo não estava fazendo um elogio exagerado quando disse: “O Senhor concedeu à nossa irmã o dom de encantar os olhos de todos os homens”.

Abelardo se referia naturalmente aos homens de seu tempo e não imaginava por certo que o nome de Heloísa atravessaria os séculos.

As citações poderiam formar hoje uma antologia vastíssima. François Villon, o poeta maldito, recordou-a na sua Ballade des dames du temps jadis, chamando-a de “a tão sábia Heloísa”.

Dois séculos depois, em 1618, Bertrand d’Argenté exclamava: “Não existe ninguém que não se maravilhe com a sabedoria desta mulher”.

E D’Alembert, escrevendo a Rousseau, em 1759, protestava: “Quando vós dizeis que as mulheres não sabem descrever e nem mesmo sentir amor, quero crer que não tenhais ainda lido as cartas de Heloísa”.

Joseph Berington, em 1787: “A alma de Heloísa era romana: e seu coração era um Coração de fogo”.

Chateaubriand viu nela a “natureza rebelde que inutilmente se debate entre os abraços do céu”.

Numa grande carta de Abelardo encontramos as regras que ele, fundador do “Paracleto”, havia estabelecido para Heloísa e suas freiras, eram regras severas, mas de acordo com os conventos da época.
➡️Uma camisa e um vestido de lã negra formavam o háhire comum das monjas.
➡️Nos meses mais frios, era tido um casaco, que devia servir também como cobertor.
➡️Em consideração à fragilidade feminina, eram permitidos um colchão e um lençol.
➡️As refeições eram duas, exceto nos dias de jejum: e Abelardo achava que, no inverno, uma só refeição deveria bastar.
➡️Carne podia ser comida uma só vez por dia e não mais que três vezes por semana.
➡️Nos dias de abstinência de carne, eram permitidos dois pratos de verdura, e, às vezes, peixe.
➡️O vinho devia ser misturado a um quarto de água.
➡️O dia era dividido dentro de um horário rigoroso, era preciso deitar muito cedo, logo depois das Completas; levantar-se à meia-noite, para a Vigília noturna; outro sono entre a Vigília e Laudes; ao soar o sino para a Prima, limpeza pessoal e leitura no claustro; em se- guida, reunião da comunidade para que todas pudessem tomar parte em discussões edificantes ou submeter-se aos castigos previstos, de acordo com as faltas cometidas; de novo leitura, cânticos ou trabalho manual até a hora da Terça, quando era rezada a missa cotidiana; trabalho até a hora da Sexta, isto é, até a hora da primeira refeição; um intervalo para descanso; outros trabalhos da Nona até Vésperas e, logo depois, a ceia; finalmente, as leituras noturnas.

E qesta foi a vida que Heloísa, sem vocação, mas em absoluta obediência, levou por mais de 30 anos.

➡️Existe um filme sobre a história de amor de Abelardo e Heloísa, bem mais romântica que a história completa aqui escrita, se chama Em Nome de Deus e recomendo.

Assista no YouTube

Em nome de Deus

➡️Existe também um livro que me parece ser interessante, mas ainda não o li.

O casal está enterrado no Cemitério Père Lachaise em Paris, eu já falei sobre esse Cemitério aqui, vale muito a pena visita-lo. Espero que tenham gostado, apesar da tristeza que invade nosso coração ao ler os detalhes, mas assim é a História desse casal que hoje é um dos símbolos de Paris.

Bisous et à bientôt 😘

Vanessa 🌻

Fonte: 
Mulheres Imortais, Editora Mirador.
Wikipédia

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